Objetivo do hospital de Londrina é levar tecnologia que reconhece graus de infecção para todas as instituições que formam a Iscal

 

Fotos: Ricardo Chicarelli

Fonte: Folha de Londrina

A Santa Casa iniciou nesta terça-feira (15) o atendimento de pacientes internados com o auxílio do robô Laura, plataforma de inteligência artificial em gestão de risco. A instituição é a primeira do Norte do Paraná a contar com a tecnologia, que faz uma análise para medir o grau de cada paciente sobre a sepse, doença que surge quando germes invadem a corrente sanguínea e provocam uma intensa resposta inflamatória por todo o organismo. No dia 15 de maio é celebrado o Dia Nacional de Controle de Infecção Hospitalar.

De acordo com o Ilas (Instituto Latino Americano de Sepse), a sepse é responsável por 25% de ocupação em leitos em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) no Brasil. A taxa de mortalidade de pessoas com a infecção chega a 65% dos casos. “O que a Laura faz é ler de forma rápida aquilo que os profissionais precisam ler, mas não têm a mesma rapidez. Ela sintetiza essas informações por meio de um alerta, mostrando, de todos os pacientes, aqueles que precisam de atenção, dizendo o leito e hora que começou a criticidade” explica Jacson Fressato, criador da inteligência.

Fressato aponta que o robô é cognitivo e que indica o perigo, como por exemplo, o aumento de temperatura, para a equipe do hospital possa agir. A ferramenta monitora simultaneamente todos os dados de todos os pacientes a cada 3.8 segundos, cruzando informações. “O robô consegue ver grandes textos e imagens em milésimos de segundos justamente por ser um recuro matemático”, pontua o analista de sistema, que está em Londrina para explicar sobre a tecnologia aos funcionários do hospital. A plataforma é conectada à base de dados do hospital. Laura cruza vários dados ao mesmo tempo: resultados de exames do laboratório; sinais vitais e dados de medicamentos da farmácia do hospital.

Na Santa Casa, a taxa de infecção é de 1,74%, com índice de mortalidade que varia de 23% a 48% dependendo do setor. “Não é o número de infecções que queremos diminuir, pois o nosso já está bem abaixo dos gerais. O que queremos é detectar esta infecção numa fase precoce, em que a mortalidade, se agirmos, vai ser muito menor. O importante do robô é detectar o sinal antes que ocorram disfunções de órgãos, como uma infecção generalizada tão grave, que não tem mais o que fazer”, destaca Walter Tedesco, médico infectologista e responsável pelo controle de infecções da instituição. “O robô não está somente ligado à infecção hospitalar, mas também o paciente que já veio infectado”, acrescenta.

Jacson Fressato, criador do Laura: 'O robô consegue ver grandes textos e imagens em milésimos de segundos justamente por ser um recuro matemático'
Jacson Fressato, criador do Laura: “O robô consegue ver grandes textos e imagens em milésimos de segundos justamente por ser um recuro matemático”

IMPLENTAÇÃO
Quando há indicativo de sepse, o Laura manda alertas por escalonamento de cores conforme a gravidade – indo do verde (menor gravidade) ao vermelho (maior gravidade). Os avisos chegam em televisores instalados no setor do paciente. No caso da Santa Casa, elas ficarão nos postos de enfermagem de cada unidade de atendimento. Caso o alerta não seja atendido, o robô envia e-mail ou mensagem de texto para o médico do paciente e outros profissionais.

O projeto-piloto desta inteligência artificial no hospital londrinense começou pela unidade três, onde será analisado entre 30 e 60 dias seu funcionamento. “A ideia é colocar isso em todas as unidades da Iscal (Irmandade Santa Casa de Londrina), que são três hospitais. A tecnologia será implantada de forma gradativa e a expectativa é que esteja em funcionamento em toda a irmandade até setembro, dando prioridade às áreas em que pacientes têm mais risco de ter sepse”, projeta o superintendente da Iscal, Fahd Haddad. Além da Santa Casa, fazem parte da Iscal o Hospital Infantil e o Mater Dei. Segundo ele, a implantação custou R$ 50 mil ao hospital, mas ressaltou que o valor é diferenciado porque o criador do robô tem uma parceria com as Santas Casas.

Fahd Haddad, superintendente da Iscal: mais qualidade de vida aos pacientes
Fahd Haddad, superintendente da Iscal: mais qualidade de vida aos pacientes

A irmandade tem uma média mensal de 1.300 internamentos, contando com 334 leitos, sendo 190 somente na Santa Casa. Haddad acredita que o robô trará mais qualidade de vida aos pacientes e vai melhorar o atendimento do hospital. “A Santa Casa sempre foi pioneira, porque é o hospital mais antigo de Londrina. Qualquer hospital geral, como o nosso, que atende casos de trauma e outras gravidades, tem índice de infecção elevado. Apesar de todas as dificuldades, o maior foco é o paciente e todo o esforço é válido. Esperamos que outros hospitais façam o mesmo, pois ajuda a cidade.”

‘Que as pessoas não passem pelo que passei’

Tecnologia criada para salvar vidas, o robô Laura surgiu em um contexto de perda e dor. Seu criador, Jacson Fressato, perdeu a filha com 18 dias de vida. Ela era prematura. O caso aconteceu em 2010 e foi a partir daí que o analista de sistema de Curitiba procurou entender o motivo que levou ao óbito de Laura. Durante nove meses fez trabalhos voluntários em hospitais, quando viu o que era a sepse e sua gravidade.

Percebendo que era necessário criar um sistema que permitisse identificar a doença de forma precoce, decidiu desenvolver a plataforma por conta própria. “Não tinha uma receita (para chegar ao robô). Na verdade nem sabia que íamos construir tudo isso. O único objetivo era que as pessoas não passassem pelo que passei. Entendi que a solução era tecnologia. Fui experimentando e errando até chegar ao resultado final. Foi por isso que coloquei todo meu patrimônio e energia neste projeto”, relembra Fressato.

Em 2014, Jacson Fressato, junto com um sócio, fundou a Laura Networks, especializada no desenvolvimento de sistemas com computação cognitiva. O Hospital Nossa Senhora das Graças, em Curitiba, foi o primeiro a usar a tecnologia, no final de 2016. Em alguns meses, a mortalidade por sepse na instituição caiu 17%. “Quando os primeiros resultados começaram a surgir e hospitais foram adquirindo, percebemos o quanto isso seria vantajoso para área de saúde”, conta.

Coma implantação na Santa Casa de Londrina, Laura está presente em dez hospitais. Cinco deles estão no Paraná, sendo três em Curitiba, um em Foz do Iguaçu (Oeste) e outro no Norte do Estado. Além de hospitais, a tecnologia também está sendo levada pra grandes empresas de outros setores, para identificação de erros em equipamentos. Para o futuro, o criador do robô espera que a inteligência artificial possa monitorar o surgimento de super bactérias ou de resistência bacteriana dentro do ambiente hospitalar.

Uma das principais causas de mortalidade hospitalar tardia

De acordo com o Ilas (Instituto Latino Americano de Sepse), a sepse é um conjunto de manifestações graves em todo o organismo produzidas por uma infecção. Mais conhecida como infecção generalizada, antigamente recebia o nome de septicemia ou infecção no sangue.

Na verdade, não é a infecção que está em todos os locais do organismo. Por vezes, a infecção pode estar localizada em apenas um órgão, como o pulmão, mas provoca em todo o organismo uma resposta com inflamação numa tentativa de combater o agente da infecção. Essa inflamação pode vir a comprometer o funcionamento de vários dos órgãos do paciente que pode não suportar e morrer. Esse quadro é conhecido como disfunção ou falência de múltiplos órgãos.

A sepse é responsável por 25% da ocupação de leitos em unidades de terapia intensiva no Brasil. É também a principal causa de morte na UTI e uma das principais causas de mortalidade hospitalar tardia, superando o infarto do miocárdio e o câncer. Tem alta mortalidade no país, chegando a 65% dos casos, enquanto a média mundial está em torno de 30% a 40%.

Pedro Marconi
Reportagem Local

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