Matriz dérmica bovina funciona como substituto cutâneo; tecnologia é novidade no HU e atende casos de sequelas por queimaduras

Fonte: Folha de Londrina (26/06/2017)

Gina Mardones

Gina Mardones -
“Estou sem dor e com boa expectativa”, afirma Jhonata Henrique, o primeiro paciente a receber a matriz dérmica no HU

As queimaduras de terceiro grau na região do tórax, ombros e pescoço deixaram sequelas no pintor Jhonata Silva Vieira Henrique, 31. Nesses locais, a pele retraiu, limitando os movimentos do pescoço e ombros. Com esse quadro, Henrique se tornou candidato para receber uma tecnologia inédita na região de Londrina.

Ele foi operado há cerca de 15 dias no CTQ/HU (Centro de Tratamento de Queimados do Hospital Universitário) de Londrina e passa bem. “Estou sem dor e com boa expectativa. Acredito que vou ter mais liberdade nos movimentos”, diz.

O jovem foi o primeiro paciente a receber uma matriz dérmica de origem bovina, que funciona como um substituto cutâneo, isto é, uma pele artificial para o tratamento de queimados na fase aguda e em sequelas.

O material é fixado com pontos no local e imediatamente recebe um segmento de pele muito fina do próprio paciente. “A lesão fica totalmente coberta e fechada. Com o tempo, uma nova derme vai sendo formada e essa matriz é descartada pelo próprio organismo”, diz o cirurgião Reinaldo Kuwahara, chefe médico do CTQ.

O procedimento foi liderado pelo cirurgião plástico Dilmar Leonardi, docente da Universidade Federal de Santa Catarina e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ). No que se refere ao uso de matrizes, Leonardi é um dos cirurgiões mais experientes e veio a Londrina para compartilhar a técnica de implantação. “Essa matriz vem dos Estados Unidos e está disponível desde 2016 no Brasil. É um material muito caro e, por isso, sua utilização requer experiência e grande responsabilidade”, comenta.

As matrizes dérmicas são acelulares, portanto, não causam rejeição e garantem mais elasticidade à pele, pois é justamente a derme que é construída com a matriz. Sem o enxerto, a cicatriz tende a ficar dura, com a pele esticada.

A matriz que vinha sendo utilizada no CTQ do HU era de origem porcina e, comparada com a bovina, a diferença está na característica das proteínas. “Essa nova tecnologia gera um resultado mais rápido, com menos tempo de internação, em torno de três a quatro semanas em relação ao produto anterior”, conta Kuwahara.

Leonardi explica que a matriz é implantada na parte interna e pode ser recortada em diferentes tamanhos para cobrir a área necessária. “O implante da matriz tem que ser feito sob um leito completamente seguro do que se refere a sangramento, limpeza e infecção”, afirma.

Saulo Ohara

Saulo Ohara - Reinaldo Kuwahara, chefe médico do CTQ:
Reinaldo Kuwahara, chefe médico do CTQ: “Essa nova tecnologia gera um resultado mais rápido, com menos tempo de internação”

INDICAÇÕES

Kuwahara explica que o CTQ está incorporando a tecnologia para atender apenas casos crônicos. “Pelo SUS, a matriz dérmica bovina é aplicada apenas para sequelas, mas queremos que ela passe a ser utilizada também para atender casos agudos, que é quando o paciente chega no hospital”, comenta.

O paciente Jhonata S. V. Henrique, morador de Ivaiporã (Vale do Ivaí),
sofreu as queimaduras durante um trabalho, há cinco meses. Ele foi encaminhado aos hospitais locais, não recebeu um tratamento específico para queimadura e, por isso, evoluiu para uma ferida grande sequelar.

Ao conseguir um leito no CTQ no início de maio, Henrique comenta que a dor foi reduzida quase 100% e que agora se sente seguro em estar sendo tratado adequadamente. Por morar longe e ser o primeiro paciente a receber a tecnologia no CTQ, ele ficou internado por um período maior.

O pintor lembra que no dia do acidente estava próximo a um cabo de alta tensão de 13 mil volts e levou o choque. “Eu nem cheguei a encostar, mas a corrente elétrica era fortíssima. Em segundos parecia que eu estava desmanchando e minha roupa começou a pegar fogo. Eu digo que ganhei outra vida porque Deus estava ali na hora porque eu poderia ter morrido”, desabafa.

O cirurgião plástico Leonardi comenta que a recuperação vai depender muito do próprio paciente. “Após a cirurgia, o paciente deve ter boa informação e boa aderência ao tratamento para ter sucesso”, ressalta.

Micaela Orikasa
Reportagem Local

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